
A experiência de participar de uma missão humanitária em Malanje, Angola, levou o cirurgião-dentista e especialista em Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial, Genoir Maldaner, a vivenciar desafios profissionais e sociais que ultrapassam os limites do centro cirúrgico. O relato integra a programação do II Simpósio Científico Odontológico da UCEFF EDUCACIONAL, realizado entre os dias 19 e 21 de outubro, em Chapecó (SC), e busca ampliar a visão dos acadêmicos sobre as possibilidades de atuação na Odontologia e o impacto social da profissão.
Convidado a compartilhar a experiência com os estudantes, Maldaner destaca que a Odontologia vai além do consultório e pode contribuir diretamente para transformar a realidade de comunidades em situação de vulnerabilidade. Durante a missão, ele integrou uma equipe de nove cirurgiões brasileiros que realizou procedimentos em pacientes com deformidades faciais, incluindo pessoas que, diferentemente do que ocorre habitualmente no Brasil, chegaram à idade adulta sem acesso às cirurgias reparadoras. A vivência também evidenciou as dificuldades sociais enfrentadas pela população local e reforçou, para o profissional, a importância do preparo técnico, psicológico e humano na atuação em contextos desafiadores.



Fotos: Arquivo Pessoal
Em uma entrevista para o UCEFF, o Dr. Genoir Maldaner conta como surgiu o convite para participar da missão, relembra um dos episódios mais marcantes da experiência e compartilha uma mensagem aos futuros profissionais da Odontologia.
Confira a conversa com o doutor Genoir Maldaner
- Como surgiu a oportunidade de participar da missão humanitária e qual foi sua motivação para integrar essa iniciativa?
Genoir Maldaner: “Bom, a oportunidade surgiu primeiramente por ser dentista, né? Cirurgião-dentista com especialidade em cirurgia bucomaxilofacial. No mês de abril, eu tive a oportunidade de conhecer o projeto Leozinho, do doutor Raulino Brasil, onde eu participei do projeto aqui no Brasil, em Araranguá, em Santa Catarina. E, após essa minha participação, eu recebi o feliz convite para estender esse projeto na Angola, na África.”
- Durante a missão, quais foram os principais desafios encontrados na realização das cirurgias faciais reparadoras e no atendimento aos pacientes?
Genoir Maldaner: “Quando é uma missão desse porte, porque, quando a gente fala em missão humanitária envolvendo a parte cirúrgica em si e o atendimento de pacientes, né, de crianças, adolescentes e adultos, exige uma série de requisitos prévios para você poder participar e para nós podermos exercer a profissão fora do país.
Então, nós entramos em um país desconhecido e tivemos que ter toda a parte legal, da titulação, da experiência profissional, e expor isso lá para o governo angolano, do continente africano, para poder nos auxiliar a exercer a nossa profissão lá.
Tivemos diversos desafios, mas, brevemente falando, nós levamos toda a parte de insumos. Além da nossa experiência profissional, a gente levou todo o material necessário: medicamentos, instrumentais, motores elétricos que a gente precisou lá, placas, parafusos, a parte da intubação, a parte da anestesia geral. Nós levamos tudo isso aqui do Brasil também, e foi interessante.
Então, teve toda essa logística e a nossa liberação perante a aduana, a polícia federal deles lá, para nós podermos entrar naquele país com todos esses insumos que trouxemos aqui do Brasil. Então, nós tivemos uma cooperação muito legal, muito grande do governo angolano naquele momento.”
- Além dos resultados clínicos, que impacto essa experiência teve na vida dos pacientes atendidos e na sua própria trajetória profissional e pessoal?
Genoir Maldaner: “Então, nós somos uma equipe de nove cirurgiões do Brasil no total, sendo três aqui de Santa Catarina, quatro cirurgiões do estado do Rio de Janeiro e uma colega do estado do Paraná. Então, é uma experiência enorme, porque nós fomos atuar na parte cirúrgica, levando nossas experiências aqui do Brasil para poder auxiliar ao máximo aquele povo, que nos surpreendeu enormemente pela quantidade de pacientes que tinha lá.
Normalmente, aqui no Brasil, esses pacientes são operados a partir do quinto ou sexto mês de vida. Lá, nós operamos pacientes, por exemplo, com lábio leporino, já adultos, o que é um pouco diferente da trajetória aqui no Brasil. Mas foi uma experiência enorme. Conseguimos ajudar muitos pacientes, muitas famílias que realmente estavam necessitadas.”
- O que você espera transmitir aos acadêmicos de Odontologia da UCEFF ao compartilhar essa experiência internacional?
Genoir Maldaner: “Então, é dividir um pouquinho dessa experiência e mostrar para os acadêmicos de Odontologia que a Odontologia não é só dentro do consultório. Nós podemos exercer nossa profissão ajudando outras comunidades, outros países. No meu caso, foi a cirurgia, mas nós temos aqui no Brasil mesmo projetos que podem ser auxiliados por colegas dentistas em diversas especialidades, da parte da endodontia, da clínica e da cirurgia.
Então, ter uma visão um pouquinho além do consultório, eu acho que isso é bem bacana e muito prazeroso para quem consegue participar de um projeto grandioso como foi o de Angola, assim como são os projetos aqui do Brasil também.”
- Na sua visão, qual é o papel da formação acadêmica na preparação de profissionais capazes de atuar em contextos desafiadores e participar de iniciativas humanitárias?
Genoir Maldaner: “Primeiramente, vocês têm que estar preparados para isso. Dependendo da situação, o psicológico também precisa estar bem preparado. Não é só o profissional, mas o psicológico também.
Na nossa situação, nós estamos falando de um país extremamente pobre, com pessoas extremamente necessitadas. E eu não estou falando somente da parte cirúrgica, das deformidades em si, mas de todos os quesitos: moradia, alimentação. Então, isso é muito chocante para quem sai daqui do Oeste de Santa Catarina, que tem um povo muito trabalhador, e encontra situações sociais muito diferentes das nossas.
Foi muito impactante, tanto pela parte das deformidades quanto pela parte social. É muito gratificante poder participar, e tenho certeza de que vai ficar marcado por muitos anos na nossa vida. Isso muda não só a parte profissional, mas também a parte pessoal. A forma de lidar com as situações, todas as experiências que a gente viu lá e poder compartilhar isso é muito diferente do que a gente vive aqui.”
- Qual foi o momento mais marcante da missão humanitária em Angola e por que ele ficou na sua memória?
Genoir Maldaner: “O momento mais marcante teve várias situações, mas foi o caso de uma paciente que até vou citar aqui na palestra. Era uma criança de quatro anos que já estava no centro cirúrgico, entubada, para fazer o procedimento. Lá, existe uma situação de muita crença, e a mãe levou a criança para fazer a cirurgia. Em algum momento, o pai chegou ao hospital e pediu para cancelar, então nós paramos.
O procedimento não foi feito, e a criança foi acordada. Naquele momento, toda a equipe do hospital, tanto os brasileiros quanto os angolanos, se emocionou muito. Nós estávamos lá para fazer essa boa ação e, em algum momento, aquele pai, por algum motivo — não sei dizer exatamente qual —, optou por não deixar operar a criança. E nós respeitamos, e a cirurgia não foi feita.”
- O que significa, para um profissional da Odontologia, participar de um procedimento que pode transformar a vida de uma pessoa para além dos aspectos clínicos?
Genoir Maldaner: “Muitas coisas boas. Participar de um projeto desses é algo que muita gente, e eu era uma dessas pessoas, tem muita vontade de fazer. Só que não é tão simples participar de um projeto grandioso do jeito que foi. Você tem que estar com as pessoas certas, o convite precisa aparecer e você precisa estar realmente preparado tecnicamente para isso.
Nós fomos lá operar pacientes, então foram cirurgias complexas, longas, com pacientes complexos, muitas vezes pela desnutrição e pelos problemas sistêmicos que existem lá. A gente saiu daqui do Brasil sem saber exatamente o que iria encontrar. Então, ficamos muito felizes no nosso retorno por ter tido a oportunidade de ajudar muitas famílias naquele momento.”
- Que mensagem o senhor gostaria de deixar aos acadêmicos que estão começando sua trajetória na Odontologia e que terão contato com essa experiência durante o simpósio?
Genoir Maldaner: “A Odontologia é muito grandiosa. Nós temos, hoje, na totalidade, 25 especialidades dentro da Odontologia. Então, cada acadêmico, após passar por esse período da graduação, vai ter diversas oportunidades e possibilidades de escolha, e cada um de vocês vai conseguir se identificar dentro da Odontologia.
A graduação é uma parte extremamente importante, mas ela não define tudo. Depois da graduação, existem muitas outras possibilidades e muitos desafios. É fundamental não desistir. Terão muitas dificuldades e desafios que precisam ser enfrentados e superados. Depois, com certeza, virão os benefícios e a gratificação dentro da profissão.”

















